#49 tipos de cansaço
e as tentativas de resistência pra não sucumbir
na edição de hoje: dois discos, uma mulher pra acompanhar e um croissant no Brooklyn.
fisicamente, eu me sinto bem disposta. mentalmente, depende. se eu fizer um recorte de áreas da mente e analisar, acho que a maioria vai bem. mas se eu pensar muito no estado das coisas do mundo, a avaliação desanda. e eu penso muito. especialmente sobre o estado das coisas do mundo hoje. é uma energia que eu não sei se faz sentido ser gasta. mas também não é como se eu tivesse escolha. eu me preocupo comigo, com os outros, com todos nós como sociedade.
eu gosto de debater, dialogar, argumentar. mas quando eu coloco na balança o quanto essas ações me cobram, aquela avaliação desanda de novo. e, de novo, não tenho como evitar. porque eu acredito muito na voz, na palavra, em colocar o bloco na rua e reivindicar, me posicionar. mas cansa.
por isso, de tempos em tempos, eu me permito - ou me obrigo a - descansar. eu paro e observo, eu ouço mais, leio mais, sinto mais, reflito mais. intercalo o consumo inevitável de informações do mundo como ele é com versões possíveis oferecidas pela arte.
dois discos têm sido meus companheiros nessa missão nos últimos dias. o primeiro é o The Art of Loving, da inglesa Olivia Dean. frequentemente, me pego - ou sou pega - cantarolando alguma das baladas gostosinhas do disco. eu já acompanhava a carreira dela há alguns anos e fiquei feliz com esse álbum mais complexo, que mantém a pegada neo soul da artista, e joga uma boa pitada de pop no pacote.
o outro companheiro é o novo do baiano Baco Exu do Blues. sou fã de longa data do rapper e dei play em Hasos de maneira bem despretensiosa, sem ter lido nada a respeito. na primeira faixa, saquei que não ia rolar uma escuta desatenta e me organizei pra parar e contemplar tudo o que Diogo nos oferece nesse trabalho. é rap com soul, jazz e até forró. tem uma profundidade absurda nas composições, muitas referências e várias parcerias que me apresentaram outros artistas igualmente ricos e que valeram minhas pesquisas.
de cara, senti um Baco mais seguro, que tá sabendo onde pisa. depois, pesquisei e entendi que os interlúdios que marcam o disco são extratos de sessões de terapia dele, e minha percepção sobre essa ser uma obra mais consistente e arrojada fez sentido pra mim. as composições têm a pegada combativa característica dele, que afirma “discurso leve não me agrada”, mas têm também muita delicadeza. arriscaria dizer que é o belo resultado de um período de mais escuta externa e, fundamentalmente, interna.
destaque pra capa do disco, do artista plástico baiano Brendon Reis.
inspiração da edição
há quase quinze, eu acompanho a Joanna Moura pela internet. tudo começou com um blog que ela criou pra tentar lidar com o consumismo excessivo que a afetava, chamado Um ano sem Zara. a premissa era a seguinte: todos os dias, durante um ano, ela publicaria o look que ela montou com roupas que já tinha no guarda-roupa. o objetivo? provar pra ela mesma que tinha roupa o bastante e que poderia ficar um ano sem comprar novas peças. nasceu daí uma comunidade - e uma relação absolutamente platônica entre nós (ela, eu e minha amiga Julia, que é também dessa época e pra sempre).
muitos anos se passaram, a Joanna lançou um livro, “E se eu parasse de comprar?”, que eu li e adorei, se reinventou várias vezes e continua sendo uma mulher interessante que eu gosto de acompanhar: criativa, inteligente, equilibrada, ousada e autêntica. nossos estilos não têm nada a ver, mas observar a forma como ela testa a liberdade usando a expressão estética é uma dose certeira de inspiração pra mim.
atualmente, a Jojo, para as íntimas, tem uma coluna na Folha de São Paulo, voltou a ser morena depois de anos platinada e está se mudando de Londres pro Brasil. recentemente, ela fez uma série no Instagram sobre marcas brasileiras que é de babar. além de apresentar produções nacionais incríveis, o conteúdo dela é belíssimo, bem cuidado em todos os detalhes.
consciente, engajada e generosa, ela é daquelas mulheres que puxam outras e outras, que abrem caminhos e compartilham os perrengues. além de ser uma musa da moda, ela fala sobre maternidade. mãe de dois filhos, com frequência, divide dilemas e experiências pessoais com as leitoras. e ainda tira fotos lindas de viver. vale a pena seguir e ficar de olho no que essa publicitária coloca no mundo.
um lugar para conhecer
“perder-se também é caminho”, Clarice Lispector.
a frase é do romance A cidade sitiada, de 1949, e aparece na página 186, pode conferir. ela foi apresentada a mim na faculdade, pelo professor Sergio Mota (difícil estudar Comunicação na PUC-Rio e não conhecê-lo). e foram essas singelas palavras que cristalizaram na minha mente a genialidade da escritora. a simplicidade radical da criação de Lispector reverbera diariamente nas minhas ideias. às vezes, por motivos bem mundanos e banais. às vezes, por justas causas como provar um novo croissant maravilhoso num dos bairros mais charmosos de Nova York. rs
há meses tento conhecer um restaurante em Fort Greene, no Brooklyn. nunca tem mesa disponível pra reserva e eu tive preguiça de ir até lá (40 minutos de metrô da minha casa, o que considero longe hoje em dia, mas isso é tema pra outro texto), até um fim de semana qualquer em que resolvi tentar a sorte. não era dia dela. o local estava fechado por causa de um evento privado.
na caminhada do metrô até o restaurante, tinha passado por uma padaria com fila na porta. alinhados, muitos tênis adidas daqueles de solado baixo e reto, calças largas, casacos coloridos coordenados com as camisas de botão mais soltinhas por baixo… tá, era 100% o perfil da minha bolha e, meio perdida na rua diante do restaurante fechado, decidi voltar lá. a Thea Bakery tem cardápio com inspiração na região do Oriente Médio e eu pedi o kataifi croissant porque estava muito bonito na vitrine.



kataifi é aquele doce crocante usado pra fazer o famoso chocolate de dubai. na foto, são esses “fios” em cima do croissant, que vem recheado um creme leve e saboroso de baunilha. depois, eu descobri que essa preciosidade está na lista dos 21 melhores croissants de Nova York do jornal New York Times, que é basicamente uma Bíblia do que vale a pena na cidade. eu também comi um sanduíche de ovo e bacon, no pão pita. pra beber, café.
de lá, peguei uma bicicleta e pedalei aleatoriamente o quanto deu antes de o frio me vencer. entrei numa livraria, pedi mais café e continuei lendo o livro que tinha começado naquela manhã e que vai aparecer aqui, na próxima e última edição do ano. um spoiler: é da Patti Smith. foi um sábado inesquecível o bastante pra virar história.
obrigada pela companhia. enquanto a próxima edição não chega, nós podemos conversar lá em @vivi_dacosta. é onde eu compartilho mais sobre as minhas inspirações, a vida e as oportunidades que eu observo por aí. aguardo suas opiniões e sugestões.





Eu ando cansada também de certas ideias, debates e posicionamentos (não só dos outros, mas os meus também). Final de ano é assim mesmo.
O álbum de Baco me ganhou pela capa. Ainda não escutei, mas a arte é lindíssima!!!
Um beijo, Vivi