#50 golpe de sorte
ou: tudo de bom pra compartilhar antes de 2025 acabar
na edição de hoje: 4 newsletters, 2 livros, 2 filmes, 1 série, 1 disco, 1 podcast, 1 projeto musical, 2 restaurantes e 2 artistas incríveis!
teve um tema que tangenciou muitos dos meus interesses nesse ano: construção de repertório. eu sou viciada em aprender e descobrir novas informações, principalmente, as que transformam os significados das minhas miudezas cotidianas. por exemplo, você sabia que o inventor do fone com cancelamento de ruído era um professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, o MIT, genial e obcecado por desenvolver tecnologias de áudio inovadoras e inéditas em termos de experiência de usuário? eu não sabia e me impressionei com a história de Amar Bose.
na prática e no futuro imediato, esse é o tipo de conhecimento que muda pouca coisa na minha vida. mas, cada vez mais, tenho notado que são esses detalhes que fazem diferença no tipo de vida que eu levo. do ponto de vista intelectual, é incontestável a importância da tal bagagem que a gente reúne e carrega por onde passa. se você tem mais referências, tende a ser uma pessoa mais criativa, mais aberta, mais safa na resolução de problemas. não necessariamente quem tem mais repertório é mais legal - conceito amplo e extremamente variável. às vezes, acontece de ser uma pessoa pé no saco. pois é, uma coisa não exclui a outra.
mas o que me atrai mais nisso tudo é o impacto das nossas bagagens pessoais nas relações e nas sensações que temos e vivenciamos. as pessoas mais interessantes que eu conheço são as mais interessadas, aquelas que mais querem conhecer e experimentar o diferente. na imensa maioria das vezes, são atentas e boas ouvintes. aqui, não confundir com o sujeito condescendente. o interessante também pode contrariar, causar estranheza e desconforto.
concordando ou discordando, admiro esses seres humanos que se permitem o prazer de descobrir - uma pessoa, um lugar, uma comida, um jeito de fazer algo inteiramente novo. e sempre me impressiono com quem não tem vestígio de flexibilidade. a rigidez de comportamentos e certezas me apavora.
mas nem sempre fui assim.
com o tempo, aprendi a dar chances. e aprendi com um chefe que chance é uma palavra do latim, que a língua portuguesa herdou do francês. esse meu chefe fazia questão de ressaltar que, embora no uso cotidiano a gente aplique como sinônimos, chance e risco não estão nem perto de ser a mesma coisa. chance vem do verbo cadere, que significa cair. com o tempo, seu sentido se aproximou de probabilidade, acaso. em francês, significa sorte. portanto, algo sem interferência humana. a chance pode ser positiva ou, na pior das hipóteses, neutra.
por isso, sigo dando chances.
e aqui estão algumas sugestões de chances pra você levar pro ano que vai começar. foram coisas que me tocaram em 2025 e que vão me acompanhar em 2026 como norte e inspiração.
NEWSLETTERS
por incrível que pareça, passei o ano lendo essas mulheres e ainda não tinha recomendado a escrita delas por aqui. vamos corrigir isso pra já!
tristezas de estimação. a Fabiane Guimarães é uma escritora que sempre me faz pensar: como essa mulher consegue? porque ela sabe muita coisa e faz muita coisa e compartilha muita coisa. a edição que eu recomendo é de colecionador, pra imprimir, colocar na cabeceira e reler todas as vezes em que você ameaçar se esquecer quem é o único representante dos seus sonhos na Terra.
isto não é um telegrama. a Mariana Moro transforma cartório em poesia e faz paralelos da vida com a literatura que exigem tempo pra elaboração. gosto de ler o que ela escreve devagar, com uma xícara de café ou chá do lado, parando pra pensar.
sobre todas as coisas. a Michele Contel transborda amor com uma simplicidade que é comovente.
vodca barata. se o nome da newsletter da Adelaide Ivánova não te conquistar à primeira leitura, reavalie aí seus critérios. gosto de tudo o que ela escreve, mas os diários com notas aleatórias que ela tomou enquanto cruzava o sertão são ouro puro.
LIVROS
Bread of Angels, de Patti Smith. mais de dez anos atrás, eu li Só garotos e tive uma experiência única de descobrimento: eu não sabia quem era aquela mulher, não sabia quem eram muitas das pessoas que ela citava, não sabia exatamente que cidade era aquela que ela, também, estava descobrindo. mas eu soube imediatamente que estava diante de um livro muito maravilhoso, e que acabou me transformando.
eu gosto de pensar que Só garotos me encontrou por acaso na vida. é uma forma poética de ver, eu sei, e preenche bem a lacuna que minha memória deixou. algo que não acontecerá com essa nova autobiografia de Patti Smith. o livro selou nossa relação de fã e ídola, e me arrebatou se apresentando sem rodeios, dessa vez, na cidade que eu conheço quase como a palma da minha mão. Pão do anjos chegará ao Brasil em março de 2026 e eu já estou com inveja de quem poderá ler essa preciosidade pela primeira vez no ano que vem.

tradução livre: “isso era a nossa maior fonte de conflito. ela tentava desesperadamente me controlar, até me moldar, mas eu continuava teimosamente fora do padrão.” o livro tem uma narrativa simples e belíssima, que nos leva à infância da escritora, e revela que desde pequena ela era uma artista no sentido mais romântico da ideia. é apaixonante acompanhar os encontros e desencontros da pequena Patti, que vivia doente e sentia muito tudo o que a rodeava. revisitar as ideias dessa mulher que fugia de muitos padrões foi aconchegante e também sacudiu minhas lembranças e me inspirou. excelente leitura pra começar - ou terminar - um ano.
Coisa de rico: a vida dos endinheirados brasileiros, de Michael Alcoforado. o hype passou por aqui e eu amei. sou fã do antropólogo dos ricos desde que ele lançou o podcast É tudo culpa da cultura e alugou um triplex na minha mente falando sobre o amor. difícil compartilhar algo que ainda não tenha sido dito, lido, visto ou ouvido por quem tem o mínimo de interesse sobre o livro. mas, pra registrar minha impressão, digo que é uma narrativa boa de ler, com histórias curiosas e uma tese interessantíssima. embora o autor nos proponha uma apresentação das coisas de rico sem juízo de valor, acho que é impossível não julgar aqueles tipos retratados no livro, fruto de uma pesquisa acadêmica dele que durou 15 anos. e, apesar de algumas situações beirarem o caricato, achei perceptível a acurácia técnica dos relatos. excelente olhar antropológico sobre uma parcela da sociedade brasileira.
NAS TELAS E NA TV
O Agente Secreto. eu tive o privilégio de assistir ao filme em Nova York seguido de um debate com o diretor Kléber Mendonça Filho e o ator Wagner Moura. ao fim da exibição, minha reação foi de puro encantamento. ouvi-los falar na sequência sobre escolhas de edição, a preparação pra filmagem e tantos outros detalhes sobre a produção me deixou ainda mais fascinada. eu sou fã do estilo do diretor e gosto de todos os filmes dele. achei que O Agente Secreto traz uma maturidade de ideias que todas as obras anteriores abordaram, mantendo espaço pra que quem assiste possa também tirar suas próprias conclusões.
no meu caso, a discussão proposta pelo roteiro sobre a memória - preservação e perda - me tocou e emocionou profundamente. no filme, Wagner Moura é Marcelo/Armando, um professor que está em fuga e que tenta se manter vivo no Recife de 1977, auge da ditadura militar no Brasil. o roteiro desloca o olhar do espectador muitas vezes, obrigando-o a sair da zona de conforto e a pensar sobre o que se passa na tela. o Recife é também personagem, daqueles que se impõem e reverberam muito depois que os créditos sobem. aqui nesse post do Kléber Mendonça rola um “onde está a sorridente Wally/Viviane”.
Uma batalha após a outra. outro filme longo, outro filme sobre pessoas em fuga, outro filme que não entrega nada de mão beijada a quem o vê. tenho um padrão de gosto cinematográfico? tenho, sim. Paul Thomas Anderson fez uma das cenas de perseguição mais lindas e hipnotizantes do cinema, além de um filme que é uma obra-prima e não te deixa piscar um segundo sequer. o elenco é um tópico à parte, impossível de esgotar aqui: Leonardo DiCaprio, Sean Penn, Benício Del Toro, Teyana Taylor e Chase Infiniti brilham na mesma medida e brilham muito em cena.
a história é a seguinte: num momento distópico - ou não - do mundo, um grupo de revolucionários toca o terror nos Estados Unidos, em defesa da libertação de imigrantes que são mantidos em condições precárias em centros de detenção na fronteira do país. no poder, uma elite militar com ideais de supremacia racial. o roteiro do próprio Thomas Anderson é inspirado no livro Vineland, de Thomas Pynchon, e é muito divertido, apesar da temática apocalíptica. amei também a trilha sonora.
Os Sopranos. pois é, 2025 foi o ano que eu dediquei acertar essa conta que estava pendente na minha bagagem cultural, e vou terminar a missão no ano que vem. eu tinha dez anos quando a série foi lançada e revolucionou a história da televisão. sempre soube que era brilhante e genial, mas nada me preparou para a experiência de encarar um mafioso no divã. se você tiver que passar na frente das suas listas algum clássico que ainda não viu, pode apostar nesse porque é impecável em tantos aspectos que a História fala por si.
NOS FONES DE OUVIDO
Emicida Racional VL 2 - Mesmas Cores & Mesmos Valores. 2025 foi um ano musicalmente riquíssimo. começou com Bad Bunny arrebentando todas as portas e termina com Emicida fazendo o mesmo, mas diferente. bem diferente. que disco precioso! é de chorar muitas vezes. a elaboração do luto doído ali, em carne viva, mexe com todos os sentimentos possíveis. esse álbum eu pretendo cansar de ouvir em 2026 pra degustar cada detalhe de complexidade.
Mano a Mano: MC Cabelinho. um dos melhores podcasts em atividade atualmente, sem sombra de dúvidas. Mano Brown e Semayat Oliveira dão aulas e aulas de métodos de entrevista e de todos os assuntos que eles se propõem a tratar com os convidados. esse episódio com o Cabelinho é surpreendente e bonito. tem tanta espontaneidade dos dois lados que faz você se sentir à vontade também, ainda que os debates sejam bem sérios.
Tiny Desk Brasil: João Gomes. o projeto musical que demorou pra chegar, mas que quando chegou alcançou um sucesso inquestionável. o canal todo vale a escuta. meus favoritos são o primeiro, com João Gomes, o do Péricles e o da Liniker.
ONDE COMER NO RIO E EM NOVA YORK
Balcão 201. essa restaurante no Leblon foi a minha descoberta favorita do Rio nesse ano em que, mesmo morando em Nova York, estive muitas vezes na minha cidade do coração. por que escolhi pra indicar? porque é diferente e muito, muito, muito gostoso. em tese, são só sanduíches, mas na prática é uma experiência gastronômica inesquecível. os preços são salgados e, em julho, o lugar estava lotando rápido. mas vale chegar cedo (quase nunca acho que vale uma espera muito longa pra comer) e investir pra conhecer as criações do chef João Paulo Frankenfeld. meu favorito é o sanduíche de costela, picles, maionese e queijo minas padrão. parece ordinário, mas pode adicionar o “extra” na frente!



Tatiana. esse foi um sonho realizado. muito antes de me mudar pra Nova York, eu já via o restaurante do chef Kwame Onwuachi no topo das listas de melhores da cidade e ficava babando nas criações originais dele inspiradas em pratos do cotidiano, na melhor culinária produzida por pessoas “normais”. quando assisti ao episódio do Chef’s Table sobre a história dele, eu me apaixonei pra sempre.




Onwuachi cozinha com o coração e coloca no cardápio do restaurante dele - que fica num dos lugares mais lindos de Nova York, o Lincoln Center - temperos das ruas, sabores que nos parecem familiares, mas têm muitas pitadas inovação e festa. passei meses tentando uma reserva até, finalmente, conseguir uma mesa em outubro, quando recebi um casal de amigos aqui em casa. fomos num grupo de cinco pessoas e saímos felizes, satisfeitos e com a sensação de que tinha sido uma das melhores refeições das nossas vidas.
destaco, entre os pratos principais, o pastrami de wagyu com pão de coco e repolho derretido (na galeria acima, está no canto inferior esquerdo) e o frango com arroz e ervilha, cebola confitada e geleia de pimenta (ao lado). entre os doces, todos. são impecáveis! o ambiente arremata a experiência, com iluminação bem baixa, aconchegante e calorosa. o atendimento segue a mesma linha, perfeito.



INSPIRAÇÕES
escolhi essas duas artistas pra encerrar o post e o ano porque elas são como faróis quando preciso me lembrar que a arte acolhe, sacode, é um escape das pressões e ilusões do mundo. a Manuela Navas chegou a mim graças à Jeovanna Vieira e sua Virgínia Mordida. a Maria Popova eu acompanho desde que ela tinha um blog chamado Brain Pickings, hoje, The Marginalian. as obras delas dispensam mais explicações. aproveitem!

obrigada pela companhia nesse ano intenso! que 2026 seja surpreendente e gentil. pra todos nós, desejo saúde, sempre, além de boas reflexões e dicas, debates enriquecedores e memórias incríveis.
na semana que vem, vou publicar uma crônica nova de Nova York, liberada para todos, com uma história da cidade que me fez pensar muito nas transformações da vida. espero que gostem. até o ano que vem!









poxaaaa muito obrigada pela indicacao do vodca, mas mais ainda por todas as outras! bom demais!
Já disse, mas vou dizer novamente: sou muito orgulhosa da mulher que você se tornou!❤️